TAMANHO NÃO É DOCUMENTO

Há tempos não se sentia tão desiludido com a vida. A idade pesava apesar de seguir todas as orientações do seu geriatra. Quando jovem, era assistido pelo Dr. Aderbal, ortopedista que examinava os danos causados por algum beque perna-de-pau, decidido a parar o ataque do time e atingia as suas pernas de atacante goleador.  Só sofreu uma fratura grave que o tirou do campo por duas semanas.

Aos quarenta anos de idade, passou a jogar. As luxações no pulso eram resolvidas com gelo no momento da dor e, depois, com lâmpada infravermelho.  Certo dia, uma dor no peito o fez parar no cardiologista. O médico entrou no seu cotidiano. Qualquer sintoma diferente lá ia ele ao hospital fazer eletrocardiograma e demais exames necessários à tranquilidade que todos esperam dos resultados. Estava sempre tudo bem.

As recomendações médicas eram obedecidas, e deixou de lado a cerveja e as carnes vermelhas, passando a apreciar vinhos tintos e massas italianas. Tornou-se profundo conhecedor de safras e regiões vinícolas. Os amigos o consideravam enófilo sofisticado. Após as duplas de tênis – nesta época já havia desistido das exaustivas partidas de vôlei – era rodeado pelos companheiros na mesa do clube, repleta de queijos e garrafas de vinhos. Pelo bouquet identificava a região dos vinhos, indicando o acerbo, a quantidade de açúcar, a quantidade de tanino e o valor de cada exemplar no mercado internacional. Dava um show, como fazia nos campos e nas quadras; era brilhante, como um vinho luminoso.

A pouca atividade acrescentou-lhe ao abdômen uma protuberância que ele chamava de estômago alto, e a família de barriga estufada. Não gostava de se ver com aquela pança encobrindo o falo. Era orgulhoso do seu desempenho sexual e a prova que mais gostava de mostrar era a prole numerosa que colocara no mundo.

Nunca se preocupou com as histórias de homens possuidores de “documentos” extraordinários; dizia que isto não era indicador de masculinidade e servia mais para filmes pornográficos, que detestava. Apesar do seu desempenho, sempre ouviu de colegas de esporte, algumas gozações sobre as dimensões do seu pênis. – Isto é uma bobagem, tamanho não é documento, olhem a quantidade de filhos que coloquei no mundo? E perguntem à Raimunda se ela está insatisfeita comigo, dizia em alto e bom som, calando a turma.

Recentemente, lendo, por acaso, uma página de ciência numa revista semanal, soube que cientistas fizeram uma pesquisa sobre o tamanho do pênis humano examinando cerca de 15.000 homens. A conclusão foi de que a medida média é de 13,12 centímetros em estado ereto. Ficou intrigado com a pesquisa, pois nunca havia pensado no assunto.

Na primeira oportunidade comentou com a esposa sobre a pesquisa, ela riu e mandou ele se calar e assistir ao último capítulo da novela. Assistiu, mas não se conformou com o final da novela, nem com o resultado da pesquisas.

Pela manhã, recordando a juventude, equipou-se de uma régua e, no banheiro, apurou a dimensão do seu exemplar: 13,01 centímetros. Ficou irritado ao saber que estava fora da média mundial. A tarde, no trabalho, acessou um e.mail que oferecia um milagroso produto para aumentar pênis. Ao abrir o site indicado foi infectado por um vírus. Desistiu da empreitada e deu graças aos céus por ter perdido só as suas senhas do banco.

Paulo Castelo Branco.

Medicina Social 1º Trimestre de 2015. Autorizada a publicação com indicação da fonte . www.medicinasocial.com.br