Domingo com JK

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No domingo sairei cedo da “Fazendinha JK”. Foi a maior dureza comprar a fazendinha. Precisei de financiamento de bancos, mas consegui. As safras de soja, arroz, milho e café serviram de base para o grande polo de desenvolvimento agrícola do Cerrado de hoje. De Luziânia até próximo a Brasília, a terra vermelha, que diziam ser imprestáveis para a agricultura, está verde de esperança. Nossos descobridores já diziam: “Nessas terras, em se plantando, tudo dá”.

Lembro-me bem de uma carta que escrevi para a Vera Brant em que dizia da solidão na fazendinha. Ali eu afinava os ouvidos pelo silêncio das quebradas e lia, especialmente, livros técnicos, para aprender a conhecer a administração das minhas pobres terras. Eu queria aprender sempre.
Vou sair antes do amanhecer. Se estiver chovendo, será ainda melhor. Poderei caminhar pela Esplanada com calma, sem que ninguém me reconheça. Vou deixar o caminhão estacionado na via S/1 e, a pé, começarei a minha jornada com uma oração na Catedral. Na inauguração de Brasília, em meio ao povo, chorei de emoção com a benção que recebi dos céus de ver concluída a área fundamental para a consolidação da capital no Planalto Central. Eu sabia que, se não concluísse a parte administrativa e as residências para os primeiros funcionários, não seria possível transferir a Capital. Não esqueci que também seria necessária a construção do Iate Clube para que as famílias pudessem se encontrar. Bem, agora, aos 50 anos, a cidade está firme e forte.
Em 1988, Lúcio Costa mandou-me um texto em que ele demonstrava a sua preocupação com o futuro de Brasília: “O que ocorre em Brasília e fere nossa sensibilidade é essa coisa sem remédio, porque é o próprio Brasil. É a coexistência, lado a lado, da arquitetura e da antiarquitetura, que se alastra; da inteligência e da anti-inteligência, que não para; é o apuro parede-meia com a vulgaridade, o desenvolvimento atolado no subdesenvolvimento; são as facilidades e o relativo bem-estar de uma parte, e as dificuldades e o crônico mal-estar da parte maior. Se em Brasília esse contraste avulta é porque o primeiro élan visou além – algo maior”. Essas palavras de Lúcio ecoam em minha mente com freqüência. Os problemas que ele aponta persistem até hoje.
Apesar das dúvidas sobre questões que não poderei resolver, não deixo de pensar em Brasília um só momento. Combinei com o Israel, Ernesto Silva, o Sayão e o Lúcio, para que estejam comigo no passeio de domingo. O caminhão será dirigido pelo Affonso Heliodoro, que é muito mais vivo do que nós e continua em Brasília. É o comandante da trincheira que deixei para garantir que não haveria retorno na construção da cidade.
 
Preocupado com a possibilidade de não encontrar um lugar para beber ou comer alguma coisa, como nos tempos da construção, já mandei preparar um farnel para abastecer nossas necessidades. Eu sempre fazia isto quando, naqueles tempos, voava, na madrugada, para cá. Ficar com fome, nem pensar.
No Catetinho, obra concluída em dez dias pelos companheiros João Prates, Oscar, César Prates, Juca Chaves, Roberto Penna, Dilermando Reis, Emídio Rocha, Vivaldo Lírio, Osório Reis e Agostinho Montandon, sempre havia comida mineira, violão e muita cantoria. Seria uma boa ideia, nas comemorações do cinquentenário de Brasília, uma réplica daqueles encontros. Sei que a primeira missa será reproduzida. Estarei lá com a minha turma. Quem olhar para os lados verá cada um dos candangos de joelhos, agradecendo a Deus por terem vivido a epopeia da construção dos tempos modernos.
Na caminhada, sob sol ou chuva, chegarei até a Praça dos Três Poderes. Pedirei que abram as portas do Palácio do Planalto para que o povo suba a rampa junto a mim. Abraçados, cantaremos o Hino Nacional e derramaremos lágrimas de alegria. Depois, assumirei o palanque e farei o meu discurso em homenagem a Brasília. Repetirei, como se fossem reza, as palavras que proferi no início de tudo: “Deste planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.
Quero, ainda, rever minha mãe Julia, repetir as palavras murmuradas ao ouvido de Sarah na inauguração de Brasília: "Só mesmo o Nonô seria capaz de fazer tudo isso". Por mim, teria feito muito mais.

(textos desta crônica foram colhidos nos livros “Brasília Kubitschek de Oliveira” de Ronaldo Costa Couto e “JK Exemplo e Desafio”, de Affonso Heliodoro).
 

Brasília, 12 de abril de 2010.
Paulo Castelo Branco.

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