Blog Paulo Castelo Branco

DIA DO SAIO

A presidente Dilma Rousseff está numa sinuca quase impossível de resolver, e não é difícil que, em seus momentos de solidão, reflita sobre a possibilidade de renunciar à Presidência da República.

Na nossa história já tivemos renúncias presidenciais como a de Janio Quadros, que abriu caminho para a instalação da ditadura que nos sufocou durante anos. Ou, como a de Fernando Collor, cuja renúncia chegou atrasada e ele, oficialmente, foi impedido de continuar governando.

Outro fato histórico é o “Dia do Fico”, ocorrido em 9 de janeiro de 1822. D.Pedro I, príncipe regente do Brasil - em sentido inverso ao da situação atual - desobedeceu a ordens da Corte Portuguesa determinando que retornasse a Portugal, desarticulando movimentos pela independência, o que acabou acontecendo em 7 de setembro de 1822 pelas mãos do próprio D.Pedro I.

O “Dia do Fico” assim ficou conhecido, pela frase proferida pelo Imperador na ocasião: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto! Digam ao povo que fico”.

Meses depois, D.Pedro I abdicou do trono brasileiro, após uma tentativa frustrada de recuperar o seu prestígio político quando, em Minas Gerais, tentou obter um acordo com políticos da região, esperando conciliar o seu governo com a opinião pública. A oposição não aceitou a proposta e o pressionou até a sua abdicação a favor de D.Pedro II.

Mais recentemente, o Papa Bento XVI renunciou ao cargo de representante de Deus na terra, após denúncias de corrupção de costumes e roubo nas finanças do Vaticano; Bento XVI, à época, alegou estar cansado e fragilizado pela avançada idade que exigia dele condições físicas e mentais para se manter no cargo. Até hoje o mistério perdura sobre a renúncia, pois, como a de Janio Quadros, os historiadores suspeitam que forças ocultas teriam pressionado Bento XVI, levando-o à renúncia.

Nas atuais circunstâncias nacionais, apesar de opiniões de muitos profundos conhecedores da presidente Dilma afirmarem que uma mulher que, jovem, decidiu pegar em armas para lutar contra a ditadura, submetendo-se à tortura e a prisão, não irá, após assumir o poder de forma tão inusitada, renunciar à presidência da República.

As renúncias não são sempre vergonhosas para o renunciante. Na verdade, é possível que o interesse público fique acima dos interesses pessoais, e o governante decida, como D. Pedro I, e repita a frase com pequena modificação; ou seja: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto! Digam ao povo que saio”

Neste momento em que as acusações contra o governo e ao Partido dos Trabalhadores se avolumam nos tribunais, com a prisão de dirigentes do partido e empresários envolvidos nas falcatruas contra o erário, é razoável que, em alguma delação, os companheiros não resistam e acabem desvendando a verdade e o volume de dinheiro desviado de órgãos e empresas públicas.

A agressividade do ex-presidente Lula contra as manifestações que saem às ruas diariamente demonstra o temor que se instalou no governo de que provas irrefutáveis poderão atingir Lula e Dilma. Não esqueçamos que em um governo em que até tapioca é paga com cartões corporativos é razoável surgir uma camionete qualquer para comprovar a fraude.

A história política da presidente já está traçada desde que ela entregou a área econômica ao ministro Joaquim Levy, e desde que se consolidou a independência do Senado Federal liderado por Renan Calheiros e da Câmara dos Deputados comandada por Eduardo Cunha.

A renúncia ao cargo se consolidou com a entrega do poder político ao hábil e ilibado vice-presidente Michel Temer que se desdobra para convencer algozes e aliados do governo a amenizar o ritmo das derrotas impostas à presidente, e tornar o país, ao menos, governável.

A derrubada dos programas sociais, o abandono à proteção aos trabalhadores e o descontrole da inflação só são enfrentados pela presidente com o frágil discurso de que as manifestações contra o governo são legítimas e democráticas. É claro que são, pois o brasileiro conquistou a democracia com a Constituição de 1988, aliás, desprezada pela representação do Partido dos Trabalhadores liderada por Lula.

Os movimentos populares pelo impedimento da presidente Dilma recrudescem em todos os estados da Federação, apesar de manifestações de juristas de que não há fato que o justifique; no entanto, o mais importante é a situação política que pode tornar o poder presidencial tão fraco que não restará outra medida senão pedir para sair. É difícil, mas liberta!

Brasília, 15 de abril de 2015.

Paulo Castelo Branco.

Publicado no Diário do Poder em 16.4.2015  - www.diariodopoder.com.br

Autorizada a publicação com indicação da fonte  www.blogpaulocastelobranco.com.br

A INDIGNAÇÃO VENCERÁ A AMEAÇA!

Dia 12 de abril o povo voltará às ruas para renovar o seu protesto contra o governo. Desta vez com alguma precaução, pois, como prometeu Lula, a milícia saiu às ruas com seu pequeno batalhão; pequeno, mas disposto a enfrentar tudo e  todos mesmo que para isso alguns combatentes sejam feridos e as imagens sejam exploradas na mídia.

No resto do país a manifestação comandada pela CUT, MST e a ex-UNE foi insignificante em relação aos movimentos apartidários que agregam milhões de brasileiros insatisfeitos com os desmandos praticados por companheiros na condução dos negócios do país.

Em Brasília, ao contrário, os milicianos retomaram as ações violentas, desta vez sem as máscaras dos blackbloks. Com a cara e a coragem, os partidários do confronto partiram em busca de um cadáver para carregar nos braços e conseguir uma imagem forte para tentar mostrar que os trabalhadores são vítimas do Estado.

De fato, um dos manifestantes, com características de lutador de UFC, saiu à frente de outros de menor porte e acabou atingido na testa por algum objeto que pode ter sido um cassetete ou um pau de bandeira, dos tantos que foram brandidos à frente do Congresso Nacional que se pretendia invadir.

A foto estampada na capa no Correio Brasiliense do dia 8 de abril, de autoria de Carlos Moura, é, ao mesmo tempo, reveladora e intrigante. Reveladora por demonstrar que está de volta o método da velha e ultrapassada ação violenta contra um governo democrático e impopular; e intrigante por fortalecer a hipótese da busca de imagens de sangue. É nítido que atrás do ferido há um homem empunhando uma garrafa d’água para molhar o sangue do pequeno ferimento para fazê-lo escorrer pela face do ferido. Uma verdadeira peça de teatro, pois a vítima foi medicada no ambulatório da Câmara dos Deputados, e liberado.

Esta frustrada manifestação a favor e contra o seu próprio governo é indicador da tentativa de inibir os manifestantes do próximo dia 12 de abril a saírem, mais uma vez, às ruas munidos apenas da vontade de modificar os rumos do país, vestidos do verde e amarelo que nos identifica.

É bom lembrar que os fatos que ocorreram na última manifestação da milícia não são novidades nas condutas dos companheiros. O ex-ministro do Trabalho, Almir Pazzianotto, experiente advogado de sindicato de trabalhadores, relata em seu livro recém lançado, “A Transição – 1985-1988”, episódio que remonta o início do governo José Sarney:

“Jair Meneguelli, sucessor de Lula na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, e da CUT, alternava momentos de discreto apoio, com outros de virulentos ataques, em constantes entrevistas à imprensa. Provocava-me com a esperança de que decretasse intervenção no Sindicato. Imagino que passava pela sua cabeça repetir o fenômeno Lula, vítima de duas intervenções que o transformaram em herói nacional e internacional... De maneira tranquila, mas firme, disse-lhe que não transformaria insignificante provocador em ídolo popular.”

Pazzianotto, reforçando relatos sobre os métodos usados pelos companheiros para assumir o poder ou derrubar governantes, relata ainda um dos confrontos históricos do sindicalismo brasileiros ocorrido em Leme, no interior de São Paulo. Diz o autor: “Foram mortos durante o choque entre deputados, agentes da CUT, bóias-frias, e Polícia Militar, Cibele Aparecida Manuel, de 16 anos, e Orlando Correia, de 22anos, que passavam pelo local a caminho do trabalho... Nunca se soube de quem partiram os tiros. Para o Delegado Romeu Tuma os primeiros tiros foram disparados pelos ocupantes do Opala da Assembléia. O inquérito policial não foi conclusivo. Estou convencido, entretanto, que os responsáveis, voluntária ou involuntariamente, foram os diretores da Federação, parlamentares e membros do PT que, diante da Convenção Coletiva que pacificaria as relações de trabalho na área rural, deliberaram lhe negar validade e incitar os trabalhadores à greve...” E finaliza Pazzianotto: “Teria sido José Genoíno autor dos disparos? Não sei, e não vou afirmar. De qualquer modo, a personalidade do guerrilheiro do Araguaia, afeito à violência, ao porte e uso de armas de fogo, e inequívoca tendência a passar por cima da lei, sugeria que estivesse disposto a empregá-la contra a polícia, em proveito da confusão que semeara em Leme.”

Esta é uma das tristes histórias que retratam os métodos do vale-tudo para manter ou tomar o poder! É preciso que não tenhamos medo de protestar pacificamente e ajudar a identificar os provocadores, arruaceiros e marginais infiltrados nas manifestações, apontando-os às forças de segurança pública.

Brasília, 10 de abril de 2015.

Paulo Castelo Branco.

Publicado no Diário do Poder em 10.04.2015 - www.diariodopoder.com.br   - Autorizada a publicação com indicação da fonte  - www.blogpaulocastelobranco.com.br

BANZÉ

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, passou a representar a voz do povo dentro do governo da presidente Dilma.  As suas avaliações sobre a crise econômica, instalada pela equipe petista que dirigia o país, o fez declarar que considerava a política de desonerações uma brincadeira que não deu resultados e custou extremamente caro. Dilma reagiu duramente, reafirmou a correção das suas decisões e classificou a fala de Levy como “infeliz”. O fato é que o ministro tucano está levando adiante a sua política e abrindo divergências entre os líderes do governo e, com um jeito meio carioca, disse que não era exatamente o que deseja dizer quando disse o que disse. Contornou o primeiro embate e saiu pela lateral como se fosse jogador experiente fugindo de botinada.

 

Agora, para dificultar a compreensão dos seus discursos, Levy, fluente no idioma de Shakespeare, decidiu fazer palestra para os seus colegas da Universidade de Chicago e, novamente, fez afirmações sobre o desempenho da sua chefe ao declarar: "Acho que há um desejo genuíno da presidente de acertar as coisas, às vezes não da maneira mais fácil, mas... Não da maneira mais efetiva, mas há um desejo genuíno".

O evento era restrito e em idioma estrangeiro utilizado em todos os negócios realizados pelo mundo. O ministro, não se sabe a razão, ao falar em inglês, deu demonstração de que, ou queria que o assunto não fosse bem entendido pelos demais mortais, ou não percebeu que, hoje, o Brasil,  pátria educadora, já possui grande massa de cidadãos que, se não fluentes em em outros idiomas, têm  a mesma desenvoltura dos vendedores ambulantes  nas praias do nosso litoral, não sendo difícil que algum deles tenha escutado os comentários dos participantes na saída da palestra, e comentado com repórteres mais preocupados com as entrevistas do ministro após o encontro.

A presidente, claro, não deu o braço a torcer e, praticando o seu novo jeito de governar, colocou panos quentes sobre o assunto e, suavemente, disse: "Em política, vocês sabem que às vezes eu não posso seguir um caminho curto porque eu tenho de ter o apoio de todos aqueles que me cercam. Então, tem a questão de construir consensos. Eu acho que é nesse sentido que ele falou e não tem por que criar maiores complicações por isso. Ele já explicou isso exaustivamente. Ele ficou bastante triste com isso e me explicou".

Ontem, em novo evento, agora no idioma de Camões, Levy voltou a se manifestar sobre o tema e considerou que foi armado “um banzé em cima do truísmo de que, numa empresa, muitas vezes se trabalha sob pressões e nem tudo acontece de forma ideal.”

Na verdade, esse disse-me-disse que se infiltrou na política econômica tem servido para disfarçar a gravidade do problema que arrasta milhões de brasileiros às ruas em protesto contra a má administração petista. A corrupção instalada em todos os setores chegou também a ser  praticada por funcionários de nível inferior que se animam com os desmandos superiores e partem para a extorsão contra pequenos empresários,  como tem sido divulgado frequentemente pela  mídia.

Millôr Fernandes, como São Pedro, sempre de bom humor, observando os governos, afirmou: “Por que o governo não acaba com a inflação? Muito simples: enquanto há inflação o pessoal só pergunta: Por que o governo não acaba com a inflação? Acabada a inflação o pessoal vai querer que o governo acabe com a canalhice, a violência, a corrupção e, sobretudo a própria, dele, governo, incompetência”, e completou nos idos de 1983, “Esse governo é um barco a três – olhando prum lado e remando pro outro. Sem patrão”.

É assim que estamos neste início de governo! Sem patrão.

Brasília, 30 de março de 2015.

Paulo Castelo Branco.

Publicado no Diário do Poder de 01.04.2015  www.diariodopoder.com.br Autorizada a publicação com indicação da fonte  www.blogpaulocastelobranco.com.br

 

 

 

TAL PAI, TAL FILHO?

 

É tradição da política nacional a transferência de votos de velhos políticos aos seus ascendentes, descendentes, esposas e outros parentes.

Em alguns casos, a sucessão tem tido bons resultados e, na atual legislatura, uma parcela de jovens parlamentares vêm se destacando no Congresso Nacional.

 

Deputados e senadores, carregando o peso do nome, do bem ou do mal de seus parentes, não se intimidam com inevitáveis comparações e, de cabeça erguida e disposição de mudar o rumo do país, se expõem enfrentando adversários com a força de quem adquiriu traquejo dentro de casa.

 

Estes jovens, sem culpa de passados que não são seus, exercem suas funções de forma tão independente que parecem novos quixotes, bradando lanças contra os moinhos da corrupção, dos desmandos e da política rasteira.

 

Ao ver estes jovens destemidos desbravando os seus próprios caminhos lembro-me da história do advogado de Al Capone conhecido como “Easy Eddie”. Eddie, profissional competente, durante anos, conseguiu livrar o seu cliente de todas as ações policiais e judiciais que envolviam o maior mafioso da história no século XX. É fato que, neste início de século XXI, Al Capone seria considerado, no Brasil, criminoso de menor potencial ofensivo, sem precisar de defesa de ninguém.

 

“Easy Eddie”, além de muito bem remunerado com o dinheiro procedente do crime organizado, gozava dos benefícios iguais aos dos demais marginais que serviam à Al Capone. Eddie tinha um filho a quem adorava e procurava afastá-lo das suas atividades, dedicando-lhe especial atenção nos estudos e formação de caráter; no entanto, sabia que não deixaria para o filho um bom exemplo.

 

Amargurado com a perspectiva de prejudicar o futuro do filho, “Easy Eddie”, em delação premiada, decidiu entregar à justiça os segredos de Al Capone que, afinal, foi condenado a onze anos de prisão que não cumpriu integralmente por ter ficado doente. Logo morreu.

 

“Easy Eddie” se tornou ficha limpa, como se diz hoje em dia, e foi assassinado a tiros um ano depois da prisão de Al Capone. Em seu bolso a polícia encontrou um rosário, um crucifixo, uma medalha religiosa e um poema que dizia: “O relógio da vida recebe corda apenas uma vez e nenhum homem tem o poder de decidir quando os ponteiros irão parar, se mais cedo ou mais tarde. Agora é o único tempo que você possui. Viva, ame e trabalhe com vontade. Não ponha nenhuma esperança no tempo, pois o relógio pode parar a qualquer momento”

 

O filho de Eddie chamava-se Butch O’Hare e é um herói americano. Foi piloto de caça na guerra contra o Japão e, sozinho, enfrentou e abateu uma esquadrilha inimiga que ameaçava o porta-aviões “Lexington”, sua base.

 

O’Hara morreu em combate na 2ªGuerra Mundial aos 29 anos de idade, e, hoje, o principal aeroporto de Chicago leva o seu nome. Atendeu ao desejo do pai; foi melhor que ele.

 

Brasília, 24 de março de 2015.

Paulo Castelo Branco

Publicado no Diário do Poder 25.03.2015 www.diariodopoder.com.br Autorizada a publicação com indicação da fonte www.blogpaulocastelobranco.com.br

 

DISCURSO PROFERIDO NA 0AB-DF -  23.03.2015  - NOVOS ADVOGADOS.

 

Presidente Ibanéis Rocha, em nome de quem cumprimento os colegas que compõem a mesa, Desembargador Lecir Manoel da Luz, Senhoras e Senhores.

Novos advogados e advogadas, desejo-lhes uma carreira de sucesso. Sei que não será fácil o caminho a ser percorrido até que se consiga conciliar o estudo permanente, a vida familiar e a dedicação ao trabalho.

Será necessário um grande esforço para persistir na busca da realização profissional e do sustento pessoal. Os rendimentos, inicialmente, serão parcos; no entanto, com o passar do tempo e  com o reconhecimento dos méritos do trabalho, virão os frutos que garantirão a manutenção de padrão de vida que todos ambicionamos.

O estudo aprofundado não só das leis, mas também dos comportamentos da sociedade, que evoluem e exigem mudanças, muitas das vezes radicais nas decisões judiciais, é fundamental. O acompanhamento diário dos julgamentos realizados nos tribunais superiores, que irão formar a jurisprudência, servirão para melhor preparar as petições de defesa dos seus clientes e facilitar, aos juízes, a melhor compreensão da questão a eles submetidas.

O fantástico número de ações em trâmite nos tribunais dificultam apreciações aprofundadas das causas a serem examinadas e exigem dos advogados petições claras e objetivas, mas sem deixar de lado a exposição precisa  que ofereça ao julgador a total compreensão do feito.

Por outro lado, devemos nós, advogados, buscarmos a conciliação para evitarmos a busca do Judiciário para exame de questões de simples solução. Em muitos casos, basta um telefonema ao colega ex-adverso para que tudo se resolva. Pode parecer pouco rentável o acordo, mas é indiscutível que mais vale um péssimo acordo a uma boa pendenga.

É claro que em muitos casos, sendo impossível o acordo, não restará outro caminho senão a prestação jurisdicional devida pelo Estado. Neste caso, é estar preparado para enfrentar o longo percurso das ações e conviver com a cobrança de resultados por parte do cliente que, sempre, esperava melhor desempenho do seu advogado.

Somos, hoje, 850 mil advogados e milhares de bacharéis que se formam semestralmente. Após a formatura, aqueles que desejam ser advogados são submetidos ao rigoroso "Exame de Ordem" que os qualifica a exercerem a profissão. Para muitos, o exame é uma determinação abusiva e criadora de barreiras aos novos bacharéis, no entanto, esta foi a forma encontrada pela OAB para limitar a criação de faculdades que enganam estudantes com cursos reconhecidamente deficientes.

Aos novos colegas, que ultrapassaram as dificuldades e, agora , recebem o reconhecimento da Ordem dos Advogados, que os credencia para o exercício da profissão,  quero relatar a luta de advogados que não esmorecem na defesa dos direitos fundamentais e colocam em risco a sua própria integridade física.

No final do ano passado, por designação do presidente do Conselho Federal da OAB, Dr. Marcos Vinícius Furtado Coelho, fui, eu e o Dr. Carlos Mário Veloso Filho, em missão oficial à Palestina,  atendendo a convite da Palestinian Bar Association. A calorosa recepção que recebemos de nossos colegas afastou de nós o receio de estar em área tão conturbada. Ali, conhecemos a verdadeira missão dos que encontram no Direito e na Justiça a sua realização pessoal e profissional.

Os palestinos, como os senhores sabem, vivem oprimidos e aguardam das autoridades mundiais a criação do seu estado independente. Os advogados são cerca de cinco mil distribuídos pela Cisjordânia em seccionais como as nossas. Exercem suas funções dentro de um sistema judiciário tradicional, mas só podem tratar de questões entre seus cidadãos pois, a ocupação, limita seus direitos de defender aqueles que são detidos pelas forças militares sem processo  ou respeito aos direitos fundamentais. Mas, nossos colegas, como tantos outros pelo mundo, não desistem e mantêm acesa a esperança de um mundo mais justo e solidário.

Nestes dias turbulentos, que nos assustam pela dimensão do assalto ao erário e que nos expõem à desfaçatez de homens públicos, se faz necessário repensarmos o nosso destino. Muitos jovens advogados, em conversas informais, expressam suas angustias com o futuro do nosso país e imaginam que não sobreviveremos a mais estes escândalos. Digo-lhes que sempre haverá de prevalecer a Justiça e a democracia;  e conto-lhes pequena passagem de minha própria história. Jovem estudante, perguntei à minha mãe a razão de ela ter  gerado filhos em 1939, 1942 e 1944, quando Adolf Hitler avançava em sua louca guerra. Minha mãe, serenamente me respondeu: - É que eu tinha esperança no futuro. Depois dessa conversa, ainda teve mais três filhos.

Esta é a minha mensagem, não desistiam dos seus sonhos, confiem em dias melhores e façam as mudanças. Participem, exerçam funções públicas, pratiquem a advocacia "Pro Bono", não se iludam com vultosos honorários, pois são  exceções.  Exijam respeito às suas prerrogativas de advogados. Façam como cantou o poeta da minha época de juventude: Façam a hora, não esperem acontecer!

Não quero encerrar sem agradecer o honroso convite que recebi do nosso presidente Dr.Ibanéis Rocha e do Dr. Juliano Costa Couto para participar desta solenidade, lembrando  que a Ordem dos Advogados do Brasil é a nossa casa, e dela todos devem participar, seja ocupando cargos, seja oferecendo os seus serviços na defesa da ética, do estado de direito e no respeito aos direitos humanos. Este foi o caminho que percorri e que, para minha alegria, vejo o então jovem advogado Juliano Costa Couto ocupar cargo na direção desta entidade.

Boa sorte!

Brasília, 23 de março de 2015.

Paulo Castelo Branco

OAB.DF 977

PATERNIDADE COMPARTILHADA

Nunca havia lido a página especializada em ciência. Achava as matérias extensas e as palavras sofisticadas demais para um aposentado que não esperava muita coisa da evolução da ciência que pudesse ajudá-lo a carregar o peso dos anos.

A mente funcionava melhor do que o corpo, talvez pelo hábito de fazer palavras cruzadas adquirido desde que parou de trabalhar. Para o físico, caminhava por trinta minutos, três vezes por semana. Comia pouco, bebia pouco e não andava em más companhias.

A esposa, companheira desde a juventude, dedicava-se aos netos e às ações sociais e, de modo geral, não o incomodava com picuinhas para que cortasse o cabelo, fizesse a barba ou cortasse os pelos do nariz e orelhas.

Naquele dia, como o jornal dava destaque às eleições e aos outros crimes perpetrados contra a população, parou na página dedicada às pesquisas científicas. A matéria tratava da herança alheia, uma novidade para ele, que nunca havia ouvido falar da teoria conhecida como telegonia, que estuda a possibilidade de filhos herdarem características de parceiros anteriores da mulher. A teoria foi mencionada pelo filósofo grego Aristóteles e, em 1361, foi usada para criticar o casamento do príncipe Edward, de Gales, com Joana de Kent, que já havia sido casada. Leu a matéria de cabo a rabo, inclusive o relato de que, no século 18, foram encontradas evidências do processo no mundo animal e até Charles Darwin teria investigado alguns casos, sem nada concluir.

Atuais estudos de genética descartaram a possibilidade em humanos, mas cientistas australianos afirmaram ter encontrado evidências em pesquisas realizadas em insetos, sendo apurado que óvulos imaturos de fêmeas teriam absorvido moléculas presentes no líquido seminal do primeiro macho com que se acasalaram.

Deitado, aguardando o sono chegar, pensou na herança alheia e nos filhos que teve com a esposa. Fixou-se em Adroaldo, o filho do meio de uma prole de oito meninos. Ele era diferente dos outros, apesar de ter o andar e o comportamento idêntico ao do pai. Mentalmente buscou na face do filho alguma característica de homens que conhecia desde os tempos da juventude, quando começara a namorar a companheira.

Lembrou-se de Artur, amigo de sempre, com quem formara dupla inseparável nas partidas de futebol e nas noites de bailes nos clubes da cidade. Artur, tal qual Adroaldo, era alto, cabelos claros, corpo atlético e o dedo mindinho da mão direita, comprido e torto. Pensou que isto era uma bobagem, mas não conseguiu mais dormir quando recordou que o filho possuía uma mancha azulada na axila esquerda. Quando o menino nasceu, a parteira disse que era uma marca temporária causada por seu esforço em puxá-lo na hora do parto. A marca nunca sumiu e, agora, podia ser prova de que a sua mulher teria mantido relações sexuais com o amigo, já falecido.

Levantou-se exausto, pois, durante a madrugada, selecionou uma série de fatos e comportamentos da vida conjugal que indicavam a infidelidade da esposa. O desjejum estava posto e a mulher o aguardava para concluir o preparo do café moído na hora e passado em coador de pano. Mal cumprimentou a companheira e foi logo perguntando: ­ Você se lembra do Artur, aquele nosso amigo de juventude? Ela respondeu: Qual, aquele que tinha um dedo comprido e torto, e uma mancha azulada no sovaco? Nem lembro mais, por quê? Por nada, disse resignado.

Paulo Castelo Branco.

Publicado na revista Medicina Social 1º trimestre de 2015  - www.medicinasocial.com.br Autorizada a publicação com indicação da fonte  www.blogpaulocastelobranco.com.br

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