Blog Paulo Castelo Branco

TAMANHO NÃO É DOCUMENTO

Há tempos não se sentia tão desiludido com a vida. A idade pesava apesar de seguir todas as orientações do seu geriatra. Quando jovem, era assistido pelo Dr. Aderbal, ortopedista que examinava os danos causados por algum beque perna-de-pau, decidido a parar o ataque do time e atingia as suas pernas de atacante goleador.  Só sofreu uma fratura grave que o tirou do campo por duas semanas.

Aos quarenta anos de idade, passou a jogar. As luxações no pulso eram resolvidas com gelo no momento da dor e, depois, com lâmpada infravermelho.  Certo dia, uma dor no peito o fez parar no cardiologista. O médico entrou no seu cotidiano. Qualquer sintoma diferente lá ia ele ao hospital fazer eletrocardiograma e demais exames necessários à tranquilidade que todos esperam dos resultados. Estava sempre tudo bem.

As recomendações médicas eram obedecidas, e deixou de lado a cerveja e as carnes vermelhas, passando a apreciar vinhos tintos e massas italianas. Tornou-se profundo conhecedor de safras e regiões vinícolas. Os amigos o consideravam enófilo sofisticado. Após as duplas de tênis – nesta época já havia desistido das exaustivas partidas de vôlei – era rodeado pelos companheiros na mesa do clube, repleta de queijos e garrafas de vinhos. Pelo bouquet identificava a região dos vinhos, indicando o acerbo, a quantidade de açúcar, a quantidade de tanino e o valor de cada exemplar no mercado internacional. Dava um show, como fazia nos campos e nas quadras; era brilhante, como um vinho luminoso.

A pouca atividade acrescentou-lhe ao abdômen uma protuberância que ele chamava de estômago alto, e a família de barriga estufada. Não gostava de se ver com aquela pança encobrindo o falo. Era orgulhoso do seu desempenho sexual e a prova que mais gostava de mostrar era a prole numerosa que colocara no mundo.

Nunca se preocupou com as histórias de homens possuidores de “documentos” extraordinários; dizia que isto não era indicador de masculinidade e servia mais para filmes pornográficos, que detestava. Apesar do seu desempenho, sempre ouviu de colegas de esporte, algumas gozações sobre as dimensões do seu pênis. – Isto é uma bobagem, tamanho não é documento, olhem a quantidade de filhos que coloquei no mundo? E perguntem à Raimunda se ela está insatisfeita comigo, dizia em alto e bom som, calando a turma.

Recentemente, lendo, por acaso, uma página de ciência numa revista semanal, soube que cientistas fizeram uma pesquisa sobre o tamanho do pênis humano examinando cerca de 15.000 homens. A conclusão foi de que a medida média é de 13,12 centímetros em estado ereto. Ficou intrigado com a pesquisa, pois nunca havia pensado no assunto.

Na primeira oportunidade comentou com a esposa sobre a pesquisa, ela riu e mandou ele se calar e assistir ao último capítulo da novela. Assistiu, mas não se conformou com o final da novela, nem com o resultado da pesquisas.

Pela manhã, recordando a juventude, equipou-se de uma régua e, no banheiro, apurou a dimensão do seu exemplar: 13,01 centímetros. Ficou irritado ao saber que estava fora da média mundial. A tarde, no trabalho, acessou um e.mail que oferecia um milagroso produto para aumentar pênis. Ao abrir o site indicado foi infectado por um vírus. Desistiu da empreitada e deu graças aos céus por ter perdido só as suas senhas do banco.

Paulo Castelo Branco.

Medicina Social 1º Trimestre de 2015. Autorizada a publicação com indicação da fonte . www.medicinasocial.com.br

 

É A CULTURA, GOVERNADOR

A saída de Hélio Doyle do governo do Distrito Federal é mais uma desgraça que abala a Capital da Esperança criada por Juscelino Kubitscheck, o presidente que simplificou tudo, até o nome, se transformando em JK e pronto.

Desde a redemocratização que Brasília sofre com os seus governadores, apesar de José Aparecido de Oliveira ter infligido ritmo intenso no seu governo, sabendo-o curto;  tornou a Capital em Patrimônio da Humanidade. Saiu desiludido e injustiçado, mas deixou marca de seriedade e interesse público.

A eleição de Joaquim Roriz, instalou em Brasília, o Brasil que durante anos ficou afastado do poder, da cultura, do conhecimento e da política voltada para o desenvolvimento. É fato que Roriz, em seus governos, com a entendimento dos interioranos, dos vaqueiros, dos direitos limitados de trabalhadores e da família agregada, fez de Brasília a extensão da sua fazenda e retomou as terras de seus antepassados com a força do governo eleito.

Com discurso de que ninguém é invasor da sua própria terra, Roriz, sem pensar no futuro, encarregou-se de dividir a terra, que não era mais sua, com os brasileiros desamparados e esquecidos nos rincões. Pobres e sem expectativas, com o anúncio de leite e mel, chegaram ao paraíso; e suas vidas, realmente, melhoraram.

Roriz, com recursos federais e empréstimos internacionais, agitou Brasília, virou ídolo e caiu em desgraça. Desde então, os governos, com as burras cheias do Fundo Constitucional, empurraram a Capital para disputar com Goiás e Minas Gerais o interesse de indústrias que nunca chegaram. As fortunas nasceram da construção civil. Quanto mais gente, mais moradia.

Cristovam Buarque, o segundo eleito por falta de opções ou incompetência de outros candidatos, chegou ao Palácio do Buriti com a bandeira da educação desfraldada e hoje. Sabia o professor o que todo mundo sabe: sem educação não há futuro. Não conseguiu governar e perdeu a eleição no último debate, ou round. Não deixou nada de concreto em benefício do Distrito Federal. Tem méritos, mas será sempre um porta-bandeira com suas evoluções.

Na vitória inesperada, Roriz vislumbrou a possibilidade de retomar o sonho de JK, Darcy Ribeiro e Zé Aparecido, e de transformar Brasília no templo da cultura, da arte e do turismo, vocação natural da Capital. Não conseguiu durante o primeiro mandato, pois ocupado com a entrega de mais lotes. Reeleito, construiu o Complexo Cultural da República João Herculino em homenagem ao grande empreendedor e realizador de sonhos, como o seu conterrâneo Juscelino. Os monumentos ocuparam o Eixo Monumental dando a impressão de que, afinal, a cultura, o conhecimento, a arte e o bom-humor seriam a meta do seu governo. Não foram! Ficaram como símbolo de desperdício de dinheiro público.

José Roberto Arruda despontou com discípulo de Aparecido, mas se mostrou discípulo de ninguém. Audacioso, vaidoso, competente, traíra e encantador, era quase um dicionário de conceitos bons e maus. Fez que fazia, mas não fez, a não ser o maior dano político de Brasília. Saiu do governo pela porta dos fundos. Após a sua passagem, o Distrito Federal se tornou uma disputa de boliche com governadores sendo derrubados sucessivamente. Sobrou Rogério Rosso, que conseguiu, em pouco tempo, piorar a situação.

Agnelo Queiroz foi eleito por falta de concorrentes. Não deixou saudades, e seu governo cabe em duas linhas.

A eleição de Rodrigo Rollemberg, mesmo tendo sido casual, mereceu o apoio da população conhecedora do descalabro em que ficou Brasília. Rodrigo, menino criado na terra vermelha do Planalto, filho de família de bem e acostumado com dinheiro curto, se assustou com o cofre vazio e não está conseguindo fazer uma bola de meia para formar um time campeão. Agora, pressionado pelos interesses menores de políticos da geração ultrapassada, aceita a saída do seu capitão do time e corre o risco de, como tantos outros, ficar no banco reserva do campeonato de várzea que sempre foi a política do Distrito Federal.

Brasília, 16.6.2015.

Paulo Castelo Branco.

Publicado no Diário do Poder em 16.6.2015 – www.diariodopoder.com.br - Autorizada a publicação com indicação da fonte  - www.blogpaulocastelobranco.com.br

 

 

DEBANDADA NO CARF

O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda era e é órgão importante na estrutura do ministério, sendo, no entanto, quase desconhecido pelos contribuintes. Poucos são os que buscam soluções para suas pendengas com o fisco no âmbito do CARF.

Recentemente, em virtude da “Operação Zelotes”, da Polícia Federal, o nonagenário tribunal administrativo passou a ser visível perante a população ao serem investigados procedimentos supostamente ilícitos em seus julgamentos.

Segundo a mídia, alguns membros do Conselho estariam envolvidos em venda de decisões, e o escândalo afetou a credibilidade da instituição.

O CARF teve origem nos antigos Conselho de Contribuintes instituídos pelo Decreto nº 16.580, de 4 de novembro de 1924, com competência para julgamento de recursos referentes ao Imposto sobre a Renda. À época, o Conselho era formado por cinco membros representantes do comércio, indústria, profissionais liberais e funcionários públicos, todos de reconhecida idoneidade e nomeados pelo Ministro da Fazenda.

O Conselho de Contribuintes do Imposto de Renda no Distrito Federal, único a ser instalado, iniciou seu funcionamento em 14 de setembro de 1925, sendo eleito como primeiro presidente, pelos membros do Conselho, o Dr. José Leopoldo de Bulhões Jardim, que havia sido Ministro da Fazenda nos períodos de 1902/1906 e 1909/1910.

O Decreto nº 24.036, de 26 de março de 1934, extinguiu os conselhos existentes, tanto os instituídos para julgamento do Imposto sobre a Renda quanto os de julgamento dos demais impostos, definindo que as questões referentes às rendas internas, quando decididas em primeira instância, dariam lugar a recurso:
- ao 1º Conselho de Contribuintes, quando se tratasse de imposto de renda, imposto do selo e imposto sobre vendas mercantis;
- ao 2º Conselho de Contribuintes, quando se tratasse do imposto de consumo, taxa de viação e os demais impostos, taxas e contribuições internos, cujo julgamento não estivesse atribuído ao 1º Conselho;

As questões de classificação de valor, de contrabando e quaisquer outras decorrentes de leis ou regulamentos aduaneiros foram atribuídas ao Conselho Superior de Tarifas.

O 1º Conselho foi instalado no antigo edifício do Tesouro Nacional, na Avenida Passos, no Rio de Janeiro, tendo como primeiro presidente um representante dos contribuintes, Sr. Randolpho Fernandes das Chagas, jurista, comerciante, banqueiro e economista. (dados obtidos no site do CARF)

Na simples leitura, verifica-se a importância do Conselho de Contribuintes pela expressão e competência dos seus membros; além disso, observa-se que o primeiro presidente, após a modificação de 1934, foi um representante dos contribuintes, indicando que o Estado reconhecia a contribuição que os geradores da riqueza poderiam colaborar nos procedimentos de fiscalização no recolhimento dos tributos.

Quando da transferência do Conselho de Contribuintes para Brasília, eu, jovem advogado oriundo da Advocacia Mario Arnaud Baptista, reconhecido tributarista do Rio de Janeiro, fui nomeado em 1973 para a 1ª Câmara do Primeiro Conselho e exerci mandatos até 1979. Ali, tive como meus pares ilustres funcionários públicos e representantes do Comércio e da Indústria.

Na tribuna, mestres do Direito Tributário defendiam seus clientes, levando seus conhecimentos e recebendo as decisões do colegiado com respeito, pois sabiam que os julgamentos eram fundamentados e justos. Nós, conselheiros, advogados ou não, observando os princípios éticos e morais inerentes a julgadores, não defendíamos contribuintes no âmbito do tribunal administrativo.

Nesses tempos de desgaste público, é necessária a defesa do CARF e da sua existência. A saída de dezenas de advogados dos quadros de membros do Conselho, não deve ser vista como sinal de que todos exerciam suas funções de forma duvidosa. Ao contrário, o fato é que, não só advogados conselheiros participavam em julgamentos de outras câmaras do CARF, como também funcionários aposentados da Receita Federal, antigos elaboradores das leis fiscais ou julgadores, atuavam no tribunal com desenvoltura.

Os danos causados à imagem do quase secular conselho, em breve estará superada com as determinações do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil que proibiu o exercício da advocacia nos moldes até então praticados. A decisão da OAB foi acatada pelo Ministério da Fazenda, e os julgamentos voltarão ao seu leito natural de justiça fiscal transparente e democrática.

Brasília, 10 de junho de 2015.

Paulo Castelo Branco.

Publicado no Diário do Poder – www.diariodopoder.com.br www.blogpaulocastelobranco.com.br Autorizada a publicação com indicação da fonte.

PEDALADAS

Na minha casa era a maior confusão para dar uma volta na velha bicicleta preta da marca Philips. Até hoje há controvérsias de como ela apareceu na nossa sala do dia de Natal. Éramos sete homens e quatro mulheres a disputar algumas pedaladas. Ela era inglesa, dois quadros, bagageiro, farol e uma bomba pneumática fixada na barra inferior. As meninas e os menores pedalavam com as pernas entre os quadros; maior perigo! A alegria durou pouco. Meu pai percebeu o risco das brincadeiras, quando os machucados se multiplicaram e ele decidiu vender a bicicleta. Ainda bem que não foi para um vizinho, pois, se assim fosse, morreríamos de raiva.

Durante anos as bicicletas, pelo menos nas grandes cidades, perderam espaço para os transportes coletivos e sumiram das ruas. Voltaram recentemente com a divulgação maciça das vantagens para a saúde daqueles que pedalam habitualmente.

Competições também incentivaram o desenvolvimento do esporte e o aparecimento de atletas conceituados ou não, como foi o caso do campeão Lance Armstrong que, depois de vencer a “Volta da frança” por sete vezes, confessou praticar doping, dando pedaladas nos adversários. Caiu da bicicleta e perdeu os seus títulos.

Os equipamentos se tornaram sofisticados e há no mercado bicicletas mais caras do que carros, abrindo os olhos de marginais que atacam seus proprietários para roubarem os veículos. A coisa ficou tão feia que alguns latrocínios amedrontam as pessoas e as inibe de praticar a saudável pedalada.

Há, ainda, a utilização da “pedalada” para indicar procedimentos econômicos e políticos que encobrem as reais condições do país. O governo Dilma tem sido acusado de manipular contas para demonstrar a pujança da economia nacional. A oposição já protocolou ação contra a presidente por causa das pedaladas mais recentes. O caso é grave, mas parece que ainda não será desta vez que a presidente cairá da sua magrela.

É bom lembrar que John Kerry, secretário de Estado Americano que adora se mostrar sobre o seu “camelo”, levou um tombo numa ruazinha da Suíça e fraturou o fêmur.

Aliás, magricela como está, Dilma, seguindo as orientações de seus marqueteiros, decidiu pedalar para aparecer na mídia e transformar a “pedalada econômica” em agradável passeio pelas avenidas da capital.

A presidente deve ter cuidado com essas peripécias, pois a idade também pesa no final das contas. O ideal é que volte a caminhar na ciclovia da Península dos Ministros, acompanhada do seu fiel cão Nego, como fazia em seus tempos de paz. Ali, nunca foi hostilizada, mesmo sabendo que os demais frequentadores a olhavam com receio em razão de sua intolerância.

Por fim, não se pode esquecer de Joseph Blatter, presidente da FIFA, também recentemente eleito, e que tentou de “bicicleta” dar uma pedalada no FBI e acabou no fundo das redes.

Brasília, 2 de junho de 2015.

Paulo Castelo Branco.

Publicado no “Diário do Poder” em 2.06.2015  - www.diariodopoder.com.br Autorizada a publicação com indicação da fonte  www.blogpaulocastelobranco.com.br

¿POR QUÉ TE CALLAS?

A conhecida frase “Por qué no te callas?” dirigida ao falecido Hugo Chávez, pelo rei Juan Carlos de Espanha, hoje pode ser endereçada positivamente à presidente Dilma; afinal, ela abrirá precedente na história dos trabalhadores. Além de já ter criado o feminino de presidente, Dilma, pressionada por seus companheiros, deixará de fazer o pronunciamento do “Dia do Trabalhador”, 1º de maio.

A decisão parece ser para evitar outra manifestação como o “panelaço”, que abalou a estrutura emocional da presidente. Segundo fontes confidenciais, o palácio teria recebido informações privilegiadas de algumas lojas de venda no varejo que, mesmo com a recessão que se aproxima, tiveram enorme procura por panelas e outros apetrechos culinários.

Os companheiros, acostumados a fornecer alimentos em manifestações, já haviam percebido o fato ao conferir o estoque interno dos movimentos sociais. Havia um desvio de panelões de feijoada e buchada, e, até mesmo colheres de mexer os ingredientes.

Nos ambientes restritos foram realizadas inspeções e, igualmente, constatada a falta de faqueiros de prata completos e sofisticados bules e açucareiros. A apuração preocupou os dirigentes, pois indicaram a participação de gente de confiança, municiando-se de objetos para participar discretamente da manifestação em suas varandas voltadas para o mar. Soube-se que alguns usarão lenços cobrindo os rostos para não serem identificados nas redes sociais.

Há anos que presidentes fazem pronunciamentos em comemoração ao 1º de maio. Desde 1886, quando milhares de trabalhadores revoltados com as condições de trabalho foram às ruas de Chicago, nos Estados Unidos da América, sofrendo violenta repressão. A partir de então, o mundo comemora o “Dia do Trabalhador”. No Brasil, a data foi oficializada em 1925, por decreto do presidente Arthur Bernardes.

Nas comemorações, até mesmo ditadores, costumam fazer pronunciamentos enaltecendo o valor daqueles que geram a riqueza das nações. A decisão da cúpula do governo em impedir a fala da presidente é mais um motivo para gerar repúdio e atiçar movimentos populares.

A fragilidade das medidas adotadas pelos assessores encarregados da administração das mídias sociais poderá levar à formação de grupos oposicionistas que solaparão a participação da presidente e de seus auxiliares,  transformando o evento em novo fracasso.

Grandes líderes, em seus discursos, deixaram para as novas gerações palavras de incentivo, esperança, dor e realidade. Foi assim que personagens como Martin Luther King, John Kennedy, Winston Churchill, Mahatma Gandhi e, aqui no Brasil, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, marcaram suas presenças na história da humanidade.

O silêncio da presidente em data tão significativa frustrará os trabalhadores, seus eleitores e a maioria dos brasileiros que não votou em seu nome. Curvar-se à força daqueles que deveriam obedecer a ordens fortalecerá a união de todos contra o seu mandato.

Ao assumir liderança na Segunda Guerra Mundial, Churchill, que já havia participado da Primeira Grande Guerra, prometeu aos seus concidadãos “sangue, sofrimento, lágrimas e suor”. Deu-lhes exatamente o que prometera, mas deu-lhes, também, a vitória final.

No prefácio da “Aproximação da tempestade”, Churchill afirmou: “É minha ardente esperança que a ponderação sobre o passado possa servir de guia nos dias que estão por vir, possa permitir a uma nova geração reparar alguns dos erros dos anos anteriores e, de acordo com as necessidades e a glória do homem, possa gerir o terrível panorama que se descortina do futuro”. São palavras do pós-guerra que se aplicam aos nossos tempos. Não se cale, presidente!

Brasília, 28 de abril de 2015.

Paulo Castelo Branco.

 

Escrever com regularidade é uma tarefa que nos rende observações variadas dos leitores. Há dias recebi o texto abaixo transcrito, enviado por Melissa Buratto Schaikoski, do Paraná. Guardei-o para publicá-lo. Agora que o entusiasmo amainou, é bom relembrar o momento histórico com mais vagar:

 

“EU FUI À MANIFESTAÇÃO DE DOMINGO

 

Eu fui à manifestação de domingo. Eu e mais de um milhão de pessoas. Vivemos no mesmo país. Não é um país perfeito. Nunca foi. Nenhum país é. Um país é como uma pessoa. Se constrói diariamente pela escolha de cada uma de suas células. Cada cidadão por sua atitude ou falta dela vai construindo o que chamamos de país. E lembrem-se país é uma coisa, governo é outra. Um país é mais que um governo que é um de seus elementos, junto com território e povo. Me parece entretanto que muitos que não foram às ruas (e ainda criticam quem foi) confundem uma coisa e outra. Porque votaram no governo atual, não foram às ruas, muito embora saibamos que nenhuma pessoa em sã consciência é capaz de tolerar calado o vilipêndio causado pela corrupção sem no mínimo uma indignação (tudo bem, eu sei que sempre houve corrupção....e também sempre houve uma passividade conivente do povo brasileiro). Eu não tenho nada contra partido nenhum. Talvez tenha contra todos em igual intensidade. Mas estou e sempre estarei lutando pelo bem do país em que vivo. Não importa quem governe ou quem não governe. É obrigação cívica demonstrar descontentamento quando se vê o dinheiro entregue aos cofres públicos por toda a classe trabalhadora ir parar no bolso de uns poucos, ou então no financiamento de campanhas políticas. Não, isso é totalmente descabido. Causa-me espanto ver que alguns intelectuais a quem respeito e admiro entendem que aquela manifestação foi ilegítima porque nela não se viram os verdadeiros miseráveis. Mas estes não precisam ir à manifestação para que saibamos que eles existem e que se não foram, não foi por que estão satisfeitos com as filas no Sus, a falta de vagas nas escolas, a falta de segurança nas ruas. Não, eles não foram porque não foram educados para tanto. Porque não tem consciência política. Não conseguem entender quão importante são no processo democrático. Tal alienação tampouco é exclusiva dos miseráveis ou dos que não compareceram...em todas as classes existem pessoas pobres em cultura, conhecimento e ricas em ignorância e vice-versa. É lógico que na manifestação havia de tudo. Vi um grupo de pessoas relativamente grande ornando cartazes que defendem a separação do resto do Brasil. Vi outros que, num pensamento insano defendem a ditadura militar! Vi gente alienada que lá estava sem nem saber por quê. Estou certa que a maioria jamais leu a constituição de 1988 (não posso julgar a estes últimos por que eu com dez anos de idade fui a passeata contra o Collor sem saber o que acontecia). Enfim, mas estes eram a minoria num mar de gente insatisfeita, que merece sim todo o respeito. Não são simplesmente a “elite branca”. Acho curioso quando usam este termo. Vejo preconceito. Porque você é branco não merece respeito neste país? Porque você tem uma casa e o que comer também não? Porque é você quem paga os impostos e não ganha bolsa família a você só restam as críticas? Você não pode reclamar de nada? Ainda que precise ficar preso na sua casa e no seu carro e tenha que pagar plano de saúde para ter o mínimo? Ainda que não possa sair na rua a noite sem medo de ser assaltado? Numa manifestação no sul do país o que esperavam? Aqui a maioria é branca. Ricos e pobres, todos mais brancos do que negros. Eu posso dizer de cabeça muito erguida que não tenho nenhum preconceito de raça ou de cor, ou de credo e de classe social. Posso dizer também que não são só os brancos e ricos que estão aborrecidos com a situação do Brasil. Enquanto eu e meus amigos nos dirigíamos a pé pelas ruas da cidade, passamos por muitas pessoas que não estavam indo na mesma direção. Estavam vivendo seu dia a dia. Carrinheiros, cuidadores de carro, catadores de lata. Todos por quais passávamos levantavam o braço em apoio, conscientes da nossa causa. Comoveu-me quando passamos por um rapaz numa cadeira de rodas, visivelmente pobre, empurrado por uma senhora que devia ser sua mãe. O rapaz tinha no colo um bebê. Não faço ideia para onde iam ou de onde vinham, mas manifestaram prontamente apoio àquela passeata verde amarela. Gritaram um sonoro Fora Dilma. Quero deixar claro que não tenho absolutamente nada contra a pessoa da presidente. Embora não concorde com seu desgoverno, a admiro como mulher por ter tido coragem de se candidatar e ter tido quórum para se eleger neste país machista (afinal de contas, qualquer um/uma de nós poderia ter feito o mesmo se quisesse dar a cara a tapa). Fico constrangida quando a xingam de piranha, vaca, prostituta....Outra coisa que a gente percebe que falta à algumas pessoas mesmo num protesto, é educação e discernimento. Discernimento para diferenciar a pessoa pública da privada. A presidente é uma mulher e pouco me importa como ela se comportou ou se comporta sexualmente em sua vida pessoal desde que seja uma boa governante. Logo, considero que usar os referidos termos é baixo e desnecessário e é falta de educação...se queremos viver num país civilizado, seria interessante começar por nós mesmos. Achei bonito ter sido uma manifestação pacífica. Não senti medo em nenhum momento, pelo contrário, me senti parte ativa neste país do qual também sou povo. É bonito ouvir a voz do povo. É terapêutico sair da frente da televisão para demonstrar indignação. É necessário e espero que este modo de ser do brasileiro se aprimore e se estenda para o seu dia a dia. Combatendo o mal com o bem e sabendo que sendo parte deste todo, suas atitudes também colaboram para a construção do país que sonhamos.”

 

É necessário que cada brasileiro faça como Melissa, e tenha a coragem de se expor, exigindo respeito dos políticos que nos governam!

 

Brasília 23 de abril de 2015.

Paulo Castelo Branco.

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Todo Homem nasce livre e, por toda parte, encontra-se acorrentado.
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