Blog Paulo Castelo Branco

ESCALE A SUA SELEÇÃO

 

Agora que o time do Brasil já voltou para casa e o técnico Dunga foi exonerado, chegou a hora dos brasileiros, técnicos por excelência, usarem a sua capacidade de escolha e formarem uma seleção dos melhores políticos para governar o país.

Os fichas-sujas da política, como qualquer jogador medíocre, devem ser impedidos de entrar na área e chutar ao gol. Se, com subterfúgios, alguns deles conseguirem vestir a camisa de candidato a representante do povo, daremos cartão vermelho para eles nas urnas.

Naqueles dias dos jogos da Copa do Mundo, reunidos à frente das televisões modernas e cheias de recursos, as famílias se dividiram com relação à escolha da comissão técnica na escalação do time. Muitos desejavam uma equipe mais agressiva, com atacantes se movimentando em campo com desenvoltura e fazendo gols, muitos gols. Outros, tímidos e com fé em Deus, esperavam que os goleiros adversários vacilassem e engolissem um frango no último segundo da prorrogação.

A derrota futebolística foi muito mais rápida do que os quatro anos que nos esperam sob uma nova administração. Serão longos anos para se percorrer, inclusive na preparação de uma nova seleção de futebol para a Copa do Mundo de 2014.

Na escolha daqueles que irão nos governar, existem os mais experientes, que são muito importantes na condução do nosso destino; existem também os jovens candidatos que chegam com suas histórias incipientes, mas sem máculas.

Quais serão os melhores? Queremos os mais espertos ou os mais inteligentes? Escolheremos os que se destacaram em equipes estrangeiras ou iremos preferir os que se sobressaem nos campo de várzea da periferia? Quem é o melhor?

O melhor, sem dúvida, é aquele que demonstra espírito público e vontade de servir. E onde ele está? Está na internet; basta colocar o nome do candidato nos sites de pesquisa que aparecerá a ficha dele. Se limpa, a sua escolha ficará mais fácil, mas deveremos aguardar as notícias que ainda aparecerão. Se a ficha for suja, apague o nome da sua lista e volte para a pesquisa do limpo. Seja insistente, não desista, siga em frente. Muitos sites divulgarão a vida pregressa de todos os candidatos, e assim será fácil eliminar os concorrentes indesejados.

Quando, afinal, as fichas estiverem devidamente examinadas, é hora de vestirmos a camisa dos nossos candidatos, como fazemos com os nossos times de futebol. Durante a Copa na África do Sul, milhões de torcedores adquiriram camisetas da seleção com os números e os nomes dos seus jogadores favoritos. E o preço não era irrisório, mas não interessava o valor, o que importava era torcer.

Agora, com as campanhas nas ruas, começa o mercado das camisetas com publicidade dos candidatos. Muitas pessoas aceitam vestir as camisas para fugir do frio, outras aproveitam para receber algum dinheiro, colocando propaganda do candidato em seus veículos em troca de gasolina. Muros serão pintados, panfletos passarão de mão em mão, postes serão cobertos de papel, e multas serão aplicadas aos infratores da propaganda irregular.

Que tal divulgarmos os nomes dos nossos candidatos em nossas casas, em nossas roupas, em nossos carros, só com interesse em influir na escolha dos melhores nomes para nos representar na Presidência da República, no Congresso Nacional e na Câmara Legislativa? 

Nós, brasilienses, teremos a oportunidade de escolher democraticamente os nossos representantes, e os meios de comunicação divulgarão os nomes dos candidatos ficha-sujas que insistem em retomar suas posições depois de serem impedidos pela ação da justiça e da lei. Não custa nada verificar a situação de cada um dos pretendentes e eliminar os que não merecem o voto popular.

Na hora do voto secreto, escolha com sabedoria e não pense somente no seu bem-estar: olhe para o futuro e coloque em campo a sua seleção. No jogo da política, distribua as camisetas com cuidado. Não basta escolher o melhor atacante se a defesa for fraca. Escolha uma equipe de bons políticos e vá para a arquibancada torcer para que tudo dê certo na disputa da nossa copa do mundo por um país melhor.

Brasília, 5 de julho de 2010.

Paulo Castelo Branco.

O QUE É FICHA-SUJA PARA VOCÊ, ELEITOR?

A pergunta foi feita, de supetão, a Roberval. Ele acabara de descer do ônibus interestadual na nova e bonita rodoviária de Brasília. Procedente de Águas Lindas, em Goiás, ainda dormitava, quando o repórter o abordou. Levou um susto com a pergunta semelhante a um bordão conhecido. – Você pode repetir a pergunta? O repórter repetiu: – O que é ficha-suja para você, eleitor? Roberval não respondeu imediatamente. Ficou pensando o que, na verdade, o repórter desejava. A câmera ligada e o microfone bem próximo à sua boca indicavam que a resposta deveria sair logo, ou ele perderia a oportunidade de aparecer na televisão, respondeu: – Ficha-suja é a minha. Abriu uma pasta de papelão e começou a mostrar as restrições de crédito contra ele. O câmera desligou a máquina e, junto com os demais integrantes da equipe, começaram a rir. Roberval ficou uma fera com o que considerou uma falta de respeito.

O repórter, com o microfone desligado ponderou as razões do riso: – Seu Roberval, nós também somos trabalhadores como o senhor, o que acontece é que não podemos estender a sua entrevista como o senhor pretende. A nossa matéria trata da conduta dos candidatos às próximas eleições e não as pendências de cobranças. Se o senhor quiser colaborar conosco é preciso que fale a sua opinião sobre os políticos, está bem?

Roberval concordou e a entrevista voltou ao seu ponto inicial, agora com uma multidão em volta da equipe de reportagem: – O que é ficha-suja para você, eleitor? Repetiu o repórter. A multidão gritou: – Responde, responde, responde! Roberval, nervoso, emudeceu.

A reportagem continuou com outro sujeito que parecia ser mais esperto do que o anterior. Era o Gentil, mestre de obras com serviços prestados em várias residências de bacanas, como se identificou. Máquinas ligadas e a pergunta: O que é ficha-suja para você, eleitor? Gentil, passou a mão sobre a vasta cabeleira grisalha e respondeu: – Fichas-sujas são aquelas distribuídas no Cassino da Josefa. São imundas, dá até nojo pegar nelas. O cassino é clandestino e cheio de marginais que tornam o ambiente insuportável. Nunca mais vou lá!

A equipe estava ficando louca, pois precisava voltar para a redação com a matéria pronta em meia hora e não havia conseguido concluir nenhuma entrevista. O chefe de reportagem determinou a um dos auxiliares que procurasse uma pessoa com desenvoltura para participar. O rapaz encontrou dona Maria do Carmo, pequena empresária do ramo de alimentação, que começava a se instalar nas imediações da nova rodoviária. Ela, moradora de uma discreta ocupação urbana que há 50 anos sobrevive a todos os governos e permanece à frente da estação de tratamento de esgotos da Asa Sul, parecia ter conhecimento sobre a questão e, também, decidida a ser a voz do povo.

– Tudo pronto, exclamou o chefe da equipe. Maria do Carmo, ereta, cabelos presos por uma tiara rosa -choque, arrumou o vestido e aguardou a pergunta: – O que é ficha-suja para você, eleitora. Maria do Carmo pigarreou e iniciou a resposta: – Ficha-suja para mim é a do Sócrates, meu genro, o safado engravidou a minha filha sem ter casado e, depois que a criança nasceu, se mudou com malas e cuias para dentro da minha casa. Não dá nenhuma ajuda nas despesas e ainda convida os amigos nos finais de semana para comer e beber no nosso quintal. Não agüento mais o cachorro. Falou tudo em segundos e não deu tempo nem de parar a gravação.

O entrevistador, quase desistindo da matéria, resolveu ter uma breve conversa com Maria do Carmo: – Dona Maria do Carmo,  precisamos acabar com esse assunto e gostaria que a senhora fosse a nossa entrevistada. Sua imagem será levada ao ar no horário nobre e é necessário que a senhora me ajude a fechar a matéria. O que preciso é de uma resposta única, objetiva, clara e definitiva sobre o assunto. A senhora sabe do que estamos falando? É sobre uma lei que proíbe a candidatura de políticos que tenham sido condenados por decisão colegiada ou que tenham renunciado ao cargo para não sofrer cassação do mandato.

– Ora, porque o senhor não me disse logo que o assunto era esse. É claro que posso ajudar, e aparecer na sua emissora será muito bom para o meu negócio. Com certeza venderei muito mais cachorro-quente e suco de frutas que preparo para os meus fregueses. O senhor não quer fazer a pergunta antes e verificar se a minha resposta está adequada? Disse Do Carmo, como é conhecida.

– Não, tem que ser uma resposta sincera, espontânea, curta e grossa, olhando para a câmera, sem erros. Está bem? Gravando, gritou o chefe.

– O que é ficha-suja para você, eleitora; perguntou.

Maria do Carmo, micro-empresária, brasiliense, 45 anos, mãe de sete filhos, com o olhar mais sincero do mundo, respondeu:

– Não sei!

Brasília, 26 de julho de 2010.

Paulo Castelo Branco. 

MINHA MALVADA FAVORITA

No final de semana, fui levado por minha netinha Clara para assistir ao filme “Meu malvado favorito”, um desenho animadíssimo com uma daquelas histórias engraçadas sobre um personagem estranho que se dispõe a fazer todo tipo de maldades, sem grande sucesso. A criançada explode de rir com as inusitadas situações que o tal malvado provoca.

No filme, ele é logo superado por outro sujeito que, com melhor desempenho, consegue superá-lo nas malvadezas, até que, um dia, o favorito resolve encolher a Lua e roubá-la, deixando o mundo sem a luz sedutora do nosso satélite. É claro que não vou contar o enredo todo, pois vale a pena pegar as crianças e levá-las ao cinema mais próximo. É bom não esquecer que o saco de pipoca grande e o refrigerante imenso sairão mais caros do que a entrada, mesmo a meia. Mas isso não interessa, o que vale mesmo é estar ao lado dos futuros governantes do país que se prepara para a eleição que ditará o rumo do país por oito anos.

Oito anos é a diferença de idade entre a minha neta Clarinha e a menina Dilma Rousseff, quando a candidata do presidente Lula, e agora da maioria da população, decidiu ingressar na luta contra a ditadura. Clara também estuda em colégio religioso e possui o mesmo sorriso estampado, hoje, na face renovada de Dilma. Deve ser porque Clarinha ainda não percebeu as dificuldades que irá enfrentar ao longo dos anos e, por isso, abre o sorriso da inocência que Dilma perdeu na dura batalha pela sobrevivência nos subterrâneos do regime de exceção.

Dilma é do mesmo tempo de seus adversários, quase todos na mesma faixa etária. Excluindo um ou outro, todos também viveram sob o regime que dominou a América do Sul e adjacências durante mais de vinte anos. Sobrou Cuba; é isso, sobrou. Os novos revolucionários, como o Cháves e seus bolivarianos, ou não participaram de nenhuma luta pela democracia ou, se participaram, sob seus governos, transformaram a democracia numa grosseira piada.

No tempo de Dilma, quantos jovens desejaram entrar na luta armada e não o fizeram por medo ou falta de oportunidade? Lembro-me bem do Pedro Marcos Almeida Gomes Vianna, irmão da Ghisé, então casada com o mestre Leandro Konder. Era um rapaz que, na noite da eclosão do golpe militar, passou o tempo todo ouvindo rádio em busca de informações sobre o movimento das tropas. Não conseguiu nada, mas se posicionou contra e foi excluído do Colégio Militar, onde estudava. Passou a dar aulas em cursinhos para sobreviver. Sobreviveu, apesar de ter fugido do país, quando o regime endureceu a repressão.

Agora, quando vejo o Serra anunciando que irá distribuir 100 milhões de livros aos estudantes, a memória me traz de volta a aflição de minha mãe para se livrar dos livros do meu irmão Carlos Alberto Silva Castelo Branco, jovem jornalista da equipe de Raul Riff no governo de João Goulart. Foram jogados no Rio Maracanã. Como é boa a democracia: os livros estão livres para serem lidos.  Tal qual gente, livro bom é livro solto.

No tempo de Dilma, menina-moça, enquanto nós, outros jovens, ainda brincávamos de mocinho e bandido, a estudante do Sacre- Coeur em Belo Horizonte já pegava em armas de verdade. Não existem dúvidas de que os movimentos revolucionários dos quais ela fazia parte desejava a instalação de outro tipo de ditadura, tão ou mais cruel do que o que nos dominava, mas, naqueles tempos, a escolha era igualmente cruel. Se corresse o bicho pegava; se ficasse o bicho comia. Era a lei da sobrevivência e do confronto. Houve quem sobreviveu às prisões, às torturas e ao exílio. Houve quem se omitiu ou aderiu. Houve, ainda, líderes de oposição que entraram na política e no governo e encheram os bolsos com o dinheiro público.

Foi um pouco diferente dos tempos atuais nos quais, sob o regime democrático, muitos políticos e revolucionários, no exercício do poder, com a conivência ou não dos seus parceiros, manipularam fortunas, corromperam funcionários públicos e achacaram empresários. Nos tempos de Dilma, a arma foi a opção para mudar o mundo. Nos tempos atuais, é a caneta.

A anistia que conseguimos para ambos os lados do luta política serve para indicar o caminho a ser percorrido na busca da melhoria de vida da população. Vivemos anos de paz e democracia, apesar da incapacidade das políticas governamentais em garantir contenção da violência urbana, mas, nestes dias que nos separam das eleições, poderemos observar o desempenho dos candidatos e escolher o nosso futuro presidente. Deixemos de lado os clichês que apontam fulano ou beltrano como comunistas, terroristas, milionários, empresários, ecologistas e outras acusações que não fazem mais nenhum sentido numa democracia que consegue, isto sim, tirar da disputa, por projeto de iniciativa popular, os fichas-sujas.

Vamos votar e escolher livremente, sabendo que o malvado favorito do filme, no final, era o melhor personagem da história.

Brasília, 16 de agosto de 2010.

Paulo Castelo Branco.

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Todo Homem nasce livre e, por toda parte, encontra-se acorrentado.
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